Marcio Lott, Clarisse Grova e o próprio homenageado dão voz a pérolas que estavam guardadas no baú do músico mineiro, que também integrou o Clube da Esquina

Tavito ganha álbum de inéditas com as vozes de Marcio Lott e Clarisse Grova | Foto: Carlos Pinto/Divulgação

São Tomás de Aquino não dispensa a hipérbole ao descrevê-la como “a oração perfeitíssima”, enquanto Tertuliano a exalta como “síntese de todo o Evangelho”. Foi a pedido de um padre que Tavito criou uma melodia para o “Pai Nosso”, reza que acompanha diariamente bilhões de cristãos ao redor do planeta. Porém, na hora de gravá-la, a beleza dos recursos harmônicos e melódicos empregados pelo compositor embargaram a voz de Marcio Lott. “Fiquei realmente muito emocionado, foi um custo, mas, no fim, deu tudo certo. Para mim, é uma das coisas mais belas que eu canto”, afirma o intérprete.

A versão acompanha outras nove pérolas que estavam guardadas no baú do homenageado, e que acabam de ser lançadas no álbum póstumo “Tavito Inéditas”, pela Savalla Records, gravadora de Carlos Savalla. Além de Lott, a cantora Clarisse Grova e o próprio Tavito, na faixa de abertura “…Poesias Cantadas”, emprestam voz ao repertório que traz parcerias com Luhli, Paulinho Tapajós, Etel Frota, Gilvandro Filho, Léo Nogueira, Alexandre Lemos e Elder Braga, responsáveis pelas letras para as composições do autor de clássicos como “Casa no Campo” (com Zé Rodrix) e “Rua Ramalhete” (com Ney Azambuja), falecido em 2019, aos 71 anos, vítima de um câncer no pescoço, e que foi peça fundamental do grupo Som Imaginário e do Clube da Esquina, acompanhando Milton Nascimento e Gal Costa em turnês pelo país.  

“O Tavito tem uma levada diferente de todo mundo no violão, é uma MPB meio country. Nunca vi ninguém tocando igual a ele. E o modo de armar o vocal também era único. Ele não escrevia, simplesmente juntava as pessoas e falava: ‘essa parte você decora, essa outra é sua’. E dava tudo certo. Ficava maravilhoso! Eu realmente acho que ele deveria ser mais conhecido, merecia ter feito mais sucesso”, sugere Lott, que, por volta dos 17 anos, conheceu Tavito quando ambos moravam em Belo Horizonte. “Eu saía pra rua com o Toninho Horta e a turma para fazer serenata”, relembra. Numa dessas ocasiões, eles toparam com Tavito, que já aprontava um quarteto vocal à época. “Ele gostou tanto do meu modo de cantar que o quarteto virou quinteto”, orgulha-se Lott. “Eu nunca tinha feito vocal na minha vida, comecei a aprender com ele”.

A convivência tornou-se uma profícua e genuína amizade. Juntos, eles realizaram diversos shows, e, já no Rio de Janeiro, começaram a trabalhar na produtora de jingles Zurana, criada por Tavito. Paralelamente, a produção de canções não cessava. Não eram raros os dias em que Lott e Clarisse Grova chegavam ao escritório e recebiam uma nova música para gravar, já com o arranjo pronto, para ser aprendida na hora. Ao longo do tempo, eles foram guardando essas canções que se mantiveram longe dos holofotes. No ano passado, ao conversarem com Celina Carvalho, viúva de Tavito, o projeto que agora chega à praça tomou corpo. “A gente pediu permissão e ela ficou encantada com a ideia”, compartilha Lott.

Ele, aliás, acredita que as homenagens não devem parar por aí. E não sossega até recuperar na memória o título daquela que considera uma obra-prima: “Minas de Encanto”, rara canção assinada só por Tavito, que foi parceiro de bambas como Aldir Blanc, Wagner Tiso, Marcos Valle, Luiz Carlos Sá e Renato Teixeira. “Essa música deveria ser o hino de Minas Gerais, é de uma beleza estonteante”, exalta Lott, ratificando a hipérbole presente no início do texto. Pois tudo não passa de uma forma de conceder a real dimensão à obra do amigo que prezou pela singeleza de uma casa no campo, como entoava em seu maior sucesso eternizado por Elis Regina: “Eu quero a esperança de óculos”.

Fonte: O Tempo