Escritores João Pombo Barile e Matheus Baldi, e o Memorial Brumadinho, projeto de Gustavo Penna, também venceram em diferentes categorias

Cenas dos espetáculos ‘Piracema’, do Grupo Corpo, e ‘(Um) Ensaio Sobre a Cegueira’, do Grupo Galpão | Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação e Guto Muniz/Divulgação

A Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA) divulgou nesta segunda-feira (26/1) os premiados de 2025 em diversas categorias, incluindo arquitetura, artes visuais, música, dança, literatura, cinema, teatro e televisão. Destaques de Minas Gerais levaram importantes prêmios: o Grupo Corpo, na dança; o Grupo Galpão, no teatro; e o escritório de Gustavo Penna, na arquitetura; já na seara literária, Matheus Baldi, belo-horizontino, e João Pombo Barile, paulista radicado em Minas Gerais, foram premiados. Sem contar o ator e diretor mineiro Lima Duarte, lembrado por seus 75 anos de carreira na TV. A exposição “Fullgás – Artes Visuais e Anos 1980 no Brasil”, que passou com grande repercussão pelo CCBB-BH, também foi laureada.

Grande homenageado desta edição do Prêmio APCA, o ator mineiro Lima Duarte, nascido no povoado de Nossa Senhora da Purificação do Desemboque e do Sagrado Sacramento, recebeu o troféu especial pelos 75 anos da televisão brasileira, completados em 2025.

O artista é um dos pioneiros da TV no país, com atuação em diversas funções: ele foi sonoplasta, produtor, roteirista, diretor e ator – ofício pelo qual se notabilizou. Duarte dirigiu a novela Beto Rockfeller, um dos marcos da teledramaturgia brasileira, chegando à Globo como diretor para, depois, ganhar papéis como ator.

Na categoria Coreografia e criação, foram premiados Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches por “Piracema”, do Grupo Corpo – que ainda recebeu o Prêmio Especial da associação. O espetáculo celebra os 50 anos da companhia e é um elogio à natureza criativa. Seu título remete ao fenômeno da piracema, em que peixes nadam contra a corrente para se reproduzir, metaforizando a arte que se reinventa.

A montagem trouxe inovações para a trajetória do grupo: a trilha sonora foi a primeira composta exclusivamente por uma mulher, Clarice Assad, e a coreografia foi a primeira concebida a quatro mãos, pelo veterano Rodrigo Pederneiras e pela ex-bailarina Cassi Abranches. Os dois trabalharam de forma independente, cada um com metade do elenco, para depois fundir suas visões em uma terceira obra. O resultado é um espetáculo de estrutura cíclica e fluida, que transita de movimentos contidos e germinais a explosões de energia, retornando, ao fim, a um estado de calmaria e plenitude.

Já o Grupo Galpão venceu na categoria Espetáculo com “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, adaptação do romance de José Saramago. A montagem foi idealizada pelo diretor Rodrigo Portella há cerca de 25 anos, sempre com o Galpão em mente. O espetáculo explora as camadas do texto saramaguiano, focando na crítica à perda do senso de comunidade.

A encenação se destaca por fazer com que os atores assumam simultaneamente os papéis de intérpretes e narradores-formuladores, construindo a cena a partir do imaginário, sem cenografia literal. A plateia ainda pode optar por uma experiência imersiva, assistindo a parte da apresentação de vendas nos olhos. Com trilha original de Federico Puppi, o elenco reúne nomes históricos do grupo, como Fernanda Vianna, Eduardo Moreira e Inês Peixoto.

Na categoria Obra de arquitetura no Brasil, o vencedor foi o Memorial Brumadinho, projeto do escritório Gustavo Penna. Inaugurado seis anos após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão – tragédia que vitimou 272 pessoas em 2019 –, o memorial foi concebido como espaço de homenagem, verdade e conscientização. Localizado próximo ao local do desastre, seu projeto busca ressignificar a paisagem e a memória do território, sendo apontado como um lugar de grande simbolismo e peso emocional.

O escritor belo-horizontino Mateus Baldi, por sua vez, venceu com o livro “Os Anos de Vidro” (Editora Nós) na categoria Contos. A obra, segundo livro de contos do autor, reúne 11 narrativas fragmentadas e não lineares, marcadas por fissuras afetivas, temporais e identitárias.

Os contos exploram afetos desviantes, tensões de classe e violências cotidianas, com personagens em processos de transformação – como transições de gênero, reencontros motivados por lutos e gestações – ambientados em uma cidade que atua tanto como cenário quanto como força transformadora. A estrutura narrativa, comparada a um quebra-cabeça, revela mais pelo que silencia do que pelo que explicita, investigando os limites da linguagem e da intimidade.

Ainda na seara da literatura, o escritor e jornalista João Pombo Barile venceu em Reportagem ou biografia com a obra “Presente do Acaso, um Ensaio Biográfico sobre Silviano Santiago” (Editora Autêntica). O livro, estruturado como uma extensa e íntima conversa entre gerações, revela facetas menos conhecidas do prestigiado crítico e romancista mineiro, premiado com o Camões em 2022. Barile, que acompanha a trajetória de Silviano há quase três décadas, destaca na obra a importância do acaso na vida do biografado e resgata textos perdidos, como o livro de poemas “XXXV”, com projeto gráfico de Hélio Oiticica, descoberto durante a pesquisa.

Em Exposição nacional, o prêmio foi para “Fullgás – Artes Visuais e Anos 1980 no Brasil”, que circulou por unidades do Centro Cultural Banco do Brasil e gerou intenso debate em Belo Horizonte. A mostra fez um amplo mapeamento da produção artística brasileira em um arco temporal que vai do fim da ditadura militar (1978) ao impeachment de Collor (1993).

Com curadoria de Raphael Fonseca, reuniu cerca de 300 obras de mais de 200 artistas de todos os estados, organizadas em núcleos temáticos que exploram questões políticas, de comportamento, tecnologia e identidade. Em Belo Horizonte, a exposição foi alvo de tentativas de censura e chegou a ser motivo de moção de repúdio na Câmara Municipal, evidenciando seu caráter provocador e a vitalidade do período retratado.

Veja a lista completa de vencedores a seguir.

ARQUITETURA

ARTES VISUAIS

CINEMA

DANÇA

LITERATURA

MÚSICA ERUDITA

MÚSICA POPULAR

RÁDIO

TEATRO

TEATRO INFANTOJUVENIL

TELEVISÃO

Fonte: O Tempo