A exposição “Inconsciente Preciso”, de Quim, apresenta a força da arte naïf contemporânea, com pinturas intuitivas que exploram memória, cor e imaginação

Quim apresenta telas marcadas por cores intensas e composições intuitivas na exposição “Inconsciente Preciso”, que destaca a força da arte naïf contemporânea | Foto: Divulgação

A exposição “Inconsciente Preciso” apresenta ao público de Belo Horizonte a produção de Joaquim Dimas Fidelis, o Quim, e confirma a vitalidade da arte naïf no cenário contemporâneo. Em cartaz no Parque do Palácio, a mostra inaugura a programação da Papazoglu Galeria e marca a primeira individual do artista mineiro.

Logo de início, o visitante percebe que as telas não seguem planejamento rígido. Ao contrário: Quim pinta a partir do gesto intuitivo. Ainda assim, suas composições revelam equilíbrio, ritmo e unidade cromática. É justamente essa tensão entre espontaneidade e estrutura que sustenta o conceito de “inconsciente preciso”.

Cor como ponto de partida

Antes de tudo, Quim começa pela cor. Ele apoia a tela no colo, mistura tintas diretamente na superfície e permite que a imagem surja durante o processo. Dessa forma, o desenho não antecede a pintura; ele nasce dela.

Consequentemente, surgem paisagens organizadas em faixas horizontais que dividem céu e terra. Montanhas aparecem como blocos intensos, árvores repetem-se como signos gráficos e pequenas figuras humanas ocupam cenas que transitam entre o campo e a cidade.

Segundo a curadora Sarah Ruach, essa liberdade não significa ausência de rigor. Pelo contrário, a artista observa que as imagens encontram forma e coerência no próprio ato de pintar. Assim, a ingenuidade característica da arte naïf transforma-se em potência estética.

Da roça às galerias: trajetória de Quim

Nascido em 1958, em Nelson de Sena, distrito de São João Evangelista (MG), Quim cresceu no Vale do Rio Doce e trabalhou desde a infância na lavoura. Sem formação acadêmica, migrou ainda jovem para Belo Horizonte, onde atuou como carroceiro, servente, pedreiro e pintor de paredes.

Esse último ofício, inclusive, foi decisivo. Ao combinar tintas em fachadas e interiores, desenvolveu uma percepção cromática intuitiva que mais tarde migraria para a tela. No entanto, ele só começou a pintar profissionalmente em 2017, quando uma pequena obra despertou o interesse de amigos e incentivadores.

Desde junho de 2025, o artista se dedica integralmente à produção. Portanto, a individual no Parque do Palácio consolida uma trajetória construída fora do circuito acadêmico, mas sustentada por identidade visual consistente.

Arte naïf contemporânea em destaque

A exposição também reafirma a presença da arte naïf no Brasil contemporâneo. Embora associada à espontaneidade e à ausência de academicismo, essa linguagem exige domínio de composição, ritmo e cor, elementos que Quim demonstra com segurança.

Além disso, “Inconsciente Preciso” marca o lançamento do livro Quim, publicação que reúne imagens das obras, textos críticos e reflexões sobre sua trajetória. Dessa maneira, a mostra amplia o alcance do artista e registra este momento como um marco em sua carreira.

Por fim, ao ocupar o Parque do Palácio, a exposição convida o público a redescobrir o cotidiano por meio de cores vibrantes e memórias reinventadas. Assim, Belo Horizonte recebe um novo nome da arte naïf, cuja força reside na autenticidade e na experiência vivida.

Fonte: SouBH