Destaque é a peça “Um Domingo”, que mistura as habilidades circenses com crítica social

Espetáculo “Um Domingo” é realizado pela grupo Projeto Migra, que reúne integrantes de Argentina e Uruguai | Foto: Maca Denoia/Divulgação

Desde a primeira edição do Festival Mundial do Circo, em 2001, Fernanda Vidigal ouve a sentença de morte dada às artes circenses, como se um universo com palhaços, trapezistas, malabaristas e contorcionistas não se encaixasse na contemporaneidade. “Acho o contrário. Como todas as outras artes, o circo se adapta. Hoje em dia vejo muitos espetáculos que usam tecnologia, com aparelhos que vieram até da Nasa, acompanhando a evolução que a gente vive”, afirma a coordenadora e idealizadora do festival.

A 22ª edição, com início hoje, em Belo Horizonte, é um exemplo dessa transformação, não perdendo de vista a tradição (o chamado “circo com lona”), mas de olho nas principais novidades. Algo que só foi possível depois que o festival voltou a ter um orçamento mais significativo (na casa de R$ 1,4 milhão), boa parte dele destinada à criação da Cidade do Circo, montada na Funarte, no centro da capital mineira, onde acontecerão 90% das atividades, como apresentações, debates e exposições.

“A gente está com um quê de retomada neste ano. Havia dez anos que não fazíamos o festival na Funarte, que foi o local que escolhemos para abrigar a programação já na primeira edição. E tinha muito tempo que não fazíamos um festival mais robusto em Belo Horizonte, porque estávamos circulando muito pelo interior, o que levava a ficar um pouco menor aqui. Estamos felizes por fazer o festival do tamanho que ele está hoje”, assinala Fernanda Vidigal.

Durante seis dias, os visitantes vão respirar circo, da praça de alimentação à feira de artigos. Em relação às apresentações, a idealizadora afirma que o festival buscou privilegiar a produção nacional. “A pandemia foi muito difícil para os circenses. Até hoje a circulação não se recuperou. Nossa forma de ajudar é mostrar a diversidade da produção brasileira, com espetáculos de origens diversas, como Tocantins, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul”, afirma.

Não dá para negar, porém, a grande expectativa em torno de “Um Domingo”, de procedência uruguaia e argentina. Criado pelo Projeto Migra, ele ilustra as amplas possibilidades das artes circenses nos dias atuais, ao misturar teatro, ópera, ilusionismo e crítica social. “É lindo, empolgante e muito contemporâneo, mostrando tudo do que o circo é capaz hoje. Não tem apresentador ou número circense, mas sim uma dramaturgia interessante, que envolve todo o público”, analisa Fernanda.

O circo tradicional está presente principalmente no programa Espetáculo de Variedades, realizado desde 2006, com apresentações de números curtos de artistas nacionais e internacionais, que apresentam as diversas técnicas circenses, como malabarismo, trapézio, equilibrismo, contorcionismo, ilusionismo, palhaçaria, entre outras. Para costurar esses números tão variados, foi convidado o diretor e coreógrafo catalão Cisco Aznar. 

“É muito comum nesse meio os artistas não terem propriamente um espetáculo, mas sim um número, que pode ser de malabares a palhaçaria. O Espetáculos de Variedades foi feito para isso: sete números que são transformados num inédito espetáculo de variedades. O mais interessante disso é que você acaba gerando muitos encontros, em que depois acabam trabalhando juntos, algo que já aconteceu algumas vezes”, frisa Fernanda. Nesta edição, a curiosidade fica por conta da participação especial do Favelinha Dance.

O festival mineiro também abre portas para a discussão sobre a produção e a difusão do circo no país. “Hoje temos duas realidades distintas. A realidade de quem tem lona e circula, com demandas de estrutura para se instalar, do terreno ao acesso à luz e água. E há as trupes, que estão em maior volume e enfrentam uma formação deficitária, já que, no Brasil, não tem curso superior de circo. Quem quiser seguir carreira tem que ir para fora para estudar”, descreve.

Apesar de todas as dificuldades, especialmente a falta de incentivos públicos, o circo brasileiro tem seus diferenciais. “Lá fora ele já está em outro patamar. Até o Cirque du Soleil virou uma coisa antiga, com formato lá dos anos de 1980 e 1990. Hoje se destacam os circos europeus, de países como França e Bélgica, onde há um investimento no circo. Estão anos-luz em matéria de formação e encenação, embora o nosso carregue um frescor, uma vivacidade nas criações que lá não tem”, compara Fernanda.

Circo também pode ser lugar de reflexão

Num domingo em família, todos estão reunidos em torno de uma grande mesa. Apesar do aparente clima amistoso, há uma tensão no ar, como reflexo de uma aristocracia que perdeu o brilho e exibe uma mentalidade medieval, a partir principalmente do patriarca. Com esse enredo, “Um Domingo” traz um interessante jogo lúdico, em que os sentimentos como amor e ódio são evidenciados por técnicas circenses.

“O que trazemos como novidade, como um lugar novo de pesquisa, é a conexão bastante particular entre teatro e circo. Há um sistema familiar antigo, que gera uma paródia, com as habilidades (circenses) entrando como uma consequência da emoção, de uma ação e reação entre os personagens. O resultado é muito diferente do que estamos acostumados”, afirma Tato Villanueva, cofundador da companhia

A peça foi montada pela primeira vez há cinco anos e vem circulando com bastante sucesso em festivais. “Ela estampa a identidade do Projeto Migra, ao deixar o espectador desfrutar algo além das habilidades e da surpresa do circo, fazendo-o também pensar”, assinala o artista cômico argentino. Para ele, o espetáculo chega a BH num momento melhor em relação à estreia, evoluindo ao longo das apresentações.

Com origens na palhaçaria, Villanueva conta que se juntou a outros nove artistas para fundar a companhia em busca de uma “missão mais contemporânea” para o circo. “Queríamos algo que pudesse ter uma relação com o teatro, com a ideia da dramaturgia, e que não fosse algo apenas demonstrativo. Não queríamos o super-herói do circo que mostra as suas habilidades”, observa.

Apesar da crise sofrida com o meio artístico argentino após os cortes promovidos pelo presidente Javier Milei, Villanueva pondera que esse cenário favorece a criatividade. “Num momento de injustiça social, usamos a arte para despertar o espectador, fazê-lo pensar. Nesse sentido, o nosso compromisso se torna maior”, explica. Sem possibilidade de viabilizar projetos no país, eles têm explorado o outro lado da fronteira, com apresentações em Uruguai e Brasil.

SERVIÇO
O queue. Festival Mundial de Circo
Quando. De terça (4) a domingo (9)
Onde. Na Funarte (rua Januária, 68, centro), além do teatro do Galpão Cine Horto e ruas e praças dos bairros Regina, Cidade Nova e Vila Acaba-Mundo
Quanto. Gratuito (com exceção dos espetáculos no Galpão)
Mais informações no site

Fonte: O Tempo

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